Há muitos anos tenho vontade de escrever, você sabe, mas não tenho tido tempo. Ou é isso que digo a mim mesma depois de assumir mais compromissos do que deveria e me tornar incapaz de juntar palavras que façam sentido nas madrugadas que reservei para fazê-lo. Faz algumas semanas, antes de um desses compromissos, eu passeava pelo Copan quando entrei na livraria Megafauna e me deparei com o livro de crônicas que Socorro Acioli, uma de minhas autoras favoritas, acabou de lançar. Amar é inadiável é o título. Eu não deveria tê-lo levado, pois já estou lendo uns três livros ao mesmo tempo, mas comprá-lo foi inadiável. E, depois de ler as primeiras páginas, escrever também.
Em novembro do ano passado, escrevi sobre desistir do que eu queria fazer, para dar uma chance ao que poderia fazer da minha vida, sobre como isso não deu certo. Coincidência ou não, em janeiro deste ano, comecei a trabalhar como relações públicas e assessora de imprensa na Tami Tami, uma agência de comunicação que se dedica a negócios de gastronomia e hospitalidade, e a me aproximar do sonho de trabalhar com jornalismo gastronômico. Às vezes, ainda tenho dificuldade de acreditar que essa é a minha vida. Todos os meses, todas as semanas e, em algumas delas, todos os dias, eu conheço uma pessoa incrível, da gastronomia ou do jornalismo, ou recebo oportunidades de estar em lugares e momentos que nunca fui nem capaz de imaginar.
Compartilhar um pouco do que vivo no meu Instagram, ainda que de forma efêmera, e me conectar com conhecidos e desconhecidos me fez querer aprofundar essas conversas, aqui, onde posso me expressar sem me preocupar com a quantidade de palavras, como em um diário. Um diário talvez seja ambicioso demais, mas um semanário me parece possível. Começo, então, com tudo o que me atravessou ao longo da última semana.
Eu prometi a mim mesma que reservaria o próximo domingo para retomar o controle da minha vida, que tendo a perder de tempos em tempos. Tenho trabalhado e saído muito, dormido e treinado pouco e minha alimentação… Meu congelador e geladeira, que eram cheios de comida preparada por mim e porcionada para cada refeição, estão praticamente vazios. Barrinhas de proteína e marmitas congeladas, antes reservadas para emergências, viraram parte da minha rotina. E o meu corpo tem dado cada vez mais sinais de que preciso me reequilibrar.
Até tentei recuperar pelo menos um pouco do controle no domingo passado. Tomei o café da manhã de que tanto gosto, café coado com ovos mexidos, cremosos, servidos sobre fatias de pão de fermentação natural que esquentei até que ficassem crocantes. Faltaram as frutas picadas, que como com canela em pó e pedaços de sementes de cacau torradas, mas elas tinham acabado e não quis correr o risco de ir à feira com fome. Compraria comida demais. Faxinei a casa e só então reparei que fazia um dia lindo, perfeito para correr ao ar livre. Decidi ir ao parque e a feira ficou para depois mais uma vez.
Eu havia saído na noite anterior e dormido mal, então não tinha esperança alguma de que esse treino de corrida seria bom. Pelo menos seria feito. Para a minha surpresa, mais uma vez, eu corri em um ritmo melhor do que a média e, honestamente, não sei como isso aconteceu. Talvez eu me cobre demais. Voltei para casa, ainda decidida a voltar ao controle, e fui direto à feira, com fome. Eu havia combinado de encontrar amigos da agência à tarde e, se fosse rápida, daria tempo de garantir o mínimo de frutas para a semana; as verduras e legumes, teria que me contentar com o que viesse nas marmitas congeladas.
Cheia de sacolas nas mãos, passei pelas barracas de pastel e caldo de cana, as últimas da feira, que gritavam os sabores que ainda restavam. O cheiro de massa frita invadiu o meu nariz, minha boca encheu de água e meu estômago reclamou do vazio. Resisti ao caldo de cana com limão, mas o pastel especial de carne voltou comigo para casa.
Precisava ser um pastel especial, enorme? Não. Mas eu disse que a fome me fazia comprar mais comida do que deveria, não disse?
Devorei o pastel e me arrumei para encontrar meus amigos na VEJA Comer & Beber Wine Fest, uma feira de vinhos organizada pela VEJA São Paulo, com vinícolas de lugares diversos. Fui mais por diversão, mas também para tentar educar um pouco meu paladar, que, para vinhos, se resume a gostar ou não gostar, sem saber exatamente o motivo. Os discursos ensaiados pelos expositores pouco ajudaram na minha educação. Eu adoraria saber como a mineralidade se traduz na minha boca e no meu nariz. Ela se sente na boca e no nariz? Só na boca? Ou só no nariz?
Já que ninguém explicava o vocabulário do vinho (ou talvez eu não fosse o público da feira), desisti de me educar e escolhi apenas descobrir do que gostava ou não. Vinhos italianos me agradam, mas não tanto quanto os alemães. Vinhos secos arranham minha garganta, prefiro evitá-los. Vinhos licorosos me fazem pensar em sobremesas, uma pavlova de frutas vermelhas, mas só encontrei torta de chocolate e bolo gelado de coco. E vinhos demais me fazem desejar hambúrguer com batatas fritas.
Depois de avaliar todas as opções do shopping, nós os encontramos na Ici Brasserie. A carne, que pedi ao ponto da casa, chegou à mesa farta e suculenta, acompanhada de queijo e cebola caramelizada, em um brioche selado na chapa. As batatas fritas eram finas e crocantes, mas não secas, e só senti falta de maionese para mergulhá-las. Ainda sem pavlova por perto, optamos por terminar a noite experimentando um sorbet da Italien, o meu de baunilha e chocolate com farofa doce. Não costumo gostar de sorbets, acho-os empedrados e aguados, mas esse tinha, para mim, a textura e o sabor perfeitos.
Já na segunda, acordei cansada e a culpa é do álcool, não minha. Segundas são dias em que trabalho de casa e, em teoria, tenho mais tempo para descansar ou passar pela minha lista de tarefas com calma, mas essa não era uma segunda comum. No almoço, eu participaria de um evento e, por isso, tinha uma série de afazeres para dar conta antes de sair de casa. Ainda de pijama (eu me recuso a me arrumar para trabalhar quando estou em casa, é um dos meus pequenos atos de rebeldia), organizei as tarefas da semana e comecei a fazer tudo o que precisava.
Acho engraçado perceber como as pessoas veem a minha vida, especialmente o meu trabalho, a partir do que publico no Instagram. Ninguém se divertiria ao me acompanhar em reuniões ou ao me ver digitando mensagens e textos para a imprensa por horas, todos os dias. Eu, pelo menos, acho que não. Então, compartilho o que mais me fascina: o que como e bebo, a trabalho ou a lazer, salpicado com vislumbres das histórias ou dos aprendizados que descubro ao conversar com quem trabalha nos restaurantes que frequento. Comer e beber é parte do meu trabalho, mas não é o principal. E, sinceramente, nem é o melhor - as histórias são.
Com algumas tarefas do dia feitas, corri para Pinheiros para ajudar em um evento para apresentar azeites de um de nossos clientes, a Costa d’Oro, a alguns cozinheiros. Era um almoço no Mesa 3 Pastifício, da chef Ana Soares, com vários outros chefs que acompanho há muito tempo. Enquanto servia azeites a todos e atuava como modelo de mão para os vídeos, eu os ouvia falar sobre seus planos para o futuro e sobre as dificuldades de abrir e de manter um restaurante funcionando, a frustração com o que fugia ao seu controle e a diversão com as situações inusitadas do cotidiano. Partes da conversa me davam novas ideias de pauta ou de negócios para meus clientes, que eu anotava no celular para que virassem tarefas depois.
Corri de volta para casa, organizei as ideias que surgiram durante o almoço e segui com o que já havia planejado fazer naquele dia. O tempo me escapou e, quando me dei conta, estava trabalhando fazia 12 horas. Eu realmente preciso retomar o controle da minha vida.
Na terça-feira, percebi assim que acordei que seria melhor ficar sozinha. Eu ainda estava cansada, mal-humorada, e nem a perspectiva de trabalhar com meus amigos no escritório me animava. Contrariando o que sentia, fui mesmo assim e as duas primeiras horas de trabalho já foram tão cheias de problemas que comecei a chorar. E, por algum tempo, não consegui parar. Quando finalmente me acalmei, minhas amigas me levaram para comer um doce. Fomos até a confeitaria da Luiza Lafer, onde vi um bolo lindo de limão com coco. Quando pedi, porém, a atendente me disse que estavam montando uma encomenda grande, que levaria quase todos os bolos da vitrine. Sobraria um ou outro sabor, deliciosos, eu sei, mas não eram o que eu queria.
É, não era o meu dia.
Por sorte, a confeitaria da Vivianne Wakuda também fica perto do escritório. Ir a essa confeitaria é sempre nostálgico para mim. Lembro que eu ia com minha mãe à pequena casa colorida que a Vivianne ocupava no bairro da Liberdade e ficava na fila por horas, às vezes, só para comer a choux de baunilha que ela vendia em alguns finais de semana. Comemorei quando ela abriu a loja em Moema, mais perto de onde eu morava, e experimentava novos doces a cada visita. Quando ela se mudou para Pinheiros, fiquei um pouco frustrada - por que essa concentração toda de lugares gostosos em um mesmo bairro? -, mas pelo menos a agência fica perto o suficiente para eu comer os doces de que tanto gosto de vez em quando.
Chegando lá, como sempre, queria pedir tudo, mas escolhi uma fatia do triplo chocolate, bolo feito com uma massa de chocolate amanteigada, recheada com mousse de chocolate meio amargo e coberta com chantilly de chocolate, e um café para acompanhar. Também roubei um pedacinho da choux de creme de mascarpone e calda de goiabada das minhas amigas e, entre pequenas mordidas, goles e risadas, comecei a me sentir melhor. Na volta, levei uma mini choux de baunilha comigo, em homenagem à nossa história, mas também para o caso de uma nova emergência.
A terça acabou mais leve e a quarta seguiu sem grandes acontecimentos. Escrevi e disparei releases, fiz convites a jornalistas e influenciadores e tomei um café da tarde gostoso com uma jornalista querida na Doce de Laura, uma cliente especializada em doces clássicos, e dei a sorte de ter bolo Martha Rocha, que eu nunca tinha experimentado. Ele foi criado na década de 1950, inspirado em uma mulher que foi eleita Miss Brasil e concorreu a Miss Universo, e a receita tradicional é feita com camadas de pão de ló e suspiro intercaladas com doce de ovos, nozes, chantilly e fios de ovos. A crocância sutil do suspiro entre o bolo macio e o recheio cremoso é deliciosa. De volta ao escritório, participei de uma reunião com um potencial cliente que sonho em atender desde que me tornei assessora de imprensa. Eu quero ser a jornalista que faz as histórias dele chegarem ao mundo. Torce por mim?
A quinta voltou a ser difícil, mas eu precisava dar um jeito de sobreviver. De manhã, a MaturaMeat, empresa que desenvolve câmaras de conservação e maturação para carnes, peixes e charcutarias, ofereceria um almoço a chefs e jornalistas em parceria com o Kuzuri Sushi, um de seus clientes. Junto com o Sandro Giovannone, fundador da MaturaMeat e da Spazio Lab, eu tenho organizado esses eventos há alguns meses, sempre em restaurantes diferentes e foi muito interessante experimentar peixes e carnes maturados no contexto de uma culinária japonesa mais tradicional. De tudo o que comemos, os meus pratos favoritos foram os feitos com carne maturada, o toast de língua de wagyu no pão de brioche com maionese kewpie levemente apimentada e massago [ovas de capelim, um peixe pequeno de água fria] e o gyoza de wagyu servido com um molho que leva yuzu [fruta cítrica asiática, a minha favorita dessa família, aliás].
É sempre divertido e interessante participar desses eventos com chefs, mas fico particularmente encantada quando há jornalistas presentes. Eu adoro conversar com eles sobre as suas carreiras, o que gostam e não gostam de escrever, as histórias que mais os marcaram… É como ter acesso à vida com que sonhei desde que soube que queria ser jornalista de gastronomia. Eu nunca trabalhei em grandes redações de jornais e revistas e não sei se terei essa experiência, mas posso imaginá-la ao ouvir essas pessoas me contarem sobre suas vidas. Como me descobri apaixonada pela assessoria de imprensa, talvez isso baste.
Depois do evento, senti que finalmente poderia viver os sentimentos e vontades que me acompanharam durante a semana. Diversas pessoas me mandaram um evento no Fora da Lei, um dos meus cafés favoritos, em que estudantes da Unicamp conduziriam uma pesquisa sobre o consumo de cafés especiais no Brasil (eu realmente virei a doida por café). Quando pedi para participar, um dos pesquisadores disse que eles já tinham coletado as últimas amostras de que precisavam e encerrariam as atividades.
De novo, não.
Eu o agradeci e sentei em uma das mesas compartilhadas do salão. Ele deve ter percebido a minha frustração porque, poucos minutos depois, veio até mim dizendo que fariam uma última rodada de degustação e senti minha sorte começar a mudar. Provei todos os cafés, que eles disseram ser especiais, mas meu amigo e eu podemos jurar que um deles era extraforte ou tradicional. A Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC) reconhece cinco categorias de qualidade do café: extraforte, tradicional, superior, gourmet e especial. Os cafés extrafortes e tradicionais têm doçura e acidez muito baixas e amargor muito alto, tudo o que me é desagradável e pouco associo a cafés especiais.
Talvez por causa da pesquisa, o Fora da Lei estava bem cheio para uma quinta à tarde e não quis trabalhar ali. Lembrei do Aizomê Café, na Japan House, que também tem cafés selecionados e torrados pelo Cauã Sperling, do Fora da Lei, e salgados e doces criados pelo Rafael Aoki, confeiteiro dos restaurantes Aizomê. E, melhor ainda, uma área externa reservada, onde eu poderia respirar. Enquanto seguia com as tarefas do dia, escolhi um café que achei que combinaria com o Amatake, um doce inspirado em uma tradição japonesa em que as pessoas escrevem desejos em pedaços de papel e os amarram em ramos de bambu. Ele tem a forma de um bambu cortado e é recheado com massa e creme inglês de matcha e insert [recheio gelificado] de cambuci, envolvido por ganache de matcha e finalizado com água de cambuci. Terminei o doce, o café, os afazeres e segui para casa me sentindo um pouco melhor, mas ainda não muito.
Era finalmente sexta-feira e demorei a sair da cama. Só levantei às dez, quando não podia mais adiar o trabalho. Por sorte, não havia muito mais o que fazer além de finalizar as atividades do almoço do dia anterior e organizar a ida de alguns influenciadores e jornalistas a clientes da agência, tudo o que poderia fazer do celular. Pude, então, meio que me dar a tarde de folga. Eu precisava descansar.
Combinei de encontrar uma amiga em um lugar com bons cafés, mas pouca comida. Acabamos trocando-o por uma opção com bons cafés e muita comida, a PAC (Para Acompanhar o Café), uma padaria em Perdizes que estava na minha lista de lugares para conhecer havia muito tempo. Em comemoração ao seu quarto aniversário, ela criou um cardápio especial em colaboração com o Pedro Forato (ex-Lardo), o Paulo Portes (ex-Takkø Café) e o Rodrigo Ribeiro, do ARA, só cozinheiros e confeiteiros que eu já adoro ou queria conhecer o trabalho.
Pedro criou três lanches especiais, o escabeche de copa lombo, o steak tartar sando e o sanduíche de abóbora assada, que foi o meu favorito - e depois descobri que o dele também. Paulo levou a choux de goiaba e bolo de cereal matinal, que eu já havia provado em um pop-up de seu antigo projeto, o Puta Doce. Por isso, provei o pão de banana, passado na chapa para ser aquecido e ganhar uma casquinha delicada e crocante antes de servido com caramelo de missô e sorvete de macadâmia. E também a pavlova azedinha, com uma cestinha de suspiro crocante, mas não seca e nem doce demais. Do Rodrigo, não provei o croissant brûlée e nem a tortinha folhada de maçã com alecrim, não por falta de vontade, mas de espaço no estômago. Queria morar perto o suficiente para devorar todas as opções do cardápio especial, disponível até segunda-feira, 31 de agosto. Ou, melhor ainda, que elas seguissem no cardápio.
Passamos a tarde comendo, conversando e descobrindo tantas coisas em comum, inclusive, que temos pés de café em casa. Fomos embora só quando a padaria fechou e cheguei em casa leve e animada para o sábado. Dormi cedo e acordei a tempo de arrumar a casa antes de sair para a aula de musculação. Quando cheguei ao estúdio, descobri que faria aula com dois cachorrinhos e meu dia ficou infinitamente mais feliz, ainda que eu tenha feito tantos exercícios para as pernas.
Apesar de quentes e secos demais para mim, os dias seguem lindos para correr ao ar livre. Fui ao parque e quase passei mal antes do último intervalo de corrida, mas respeitei o que meu corpo dizia e parei para descansar antes de terminar o treino. Voltei para casa com tempo somente de me arrumar e sair para a aula de panificação que uma de minhas clientes, a Leveda, gentilmente ofereceu a mim e a uma colega de trabalho, que, em tão pouco tempo, virou uma das minhas melhores amigas. Saí com um levain e uma massa de pão multigrãos que levei para o meu bar favorito, o P’Lek, onde passei a noite comendo, bebendo, conversando, rindo e observando meu pão crescer com outras pessoas queridas até mais tarde do que talvez devesse.
Já é o próximo domingo. Enquanto escrevo, ainda me sinto cansada e sigo sem muito controle sobre a minha vida.
Mas eu não trocaria essa vida por nada.
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ameeei!! tenho muito orgulho de você e certeza de que você vai longe 🥹♥️
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