Faz cinco meses que fui diagnosticada com a síndrome do esgotamento profissional, o tal do burnout, e demitida da empresa em que trabalhava. Assim que anunciaram a decisão, chorei de alívio. É estranho falar de alívio ao ter perdido um emprego, mas eu já estava infeliz há tanto tempo que não consegui sentir outra coisa. Desde então, tenho pensado sobre como passei a vida tentando me encaixar onde eu não pertencia. Quando não dava certo, surgia um desejo intenso e impossível de recomeço, de voltar no tempo e fazer escolhas melhores, ou, pelo menos, de ir para algum lugar em que ninguém saberia quem fui e o que vivi, para que eu pudesse ser e viver o que quisesse.
Eu sentia vergonha. E culpa. Por ter feito tudo errado, a vida toda.
Apesar de fazer terapia há muitos anos, foi só no último mês que consegui falar sobre isso. Enquanto elaborava pensamentos e sentimentos, lembrei de quando era pequena. Eu mudava de profissão o tempo todo, mas sempre soube que queria ajudar as pessoas. E, apesar de ser boa em quase todas as disciplinas (menos educação física, que quase reprovei uma vez), estudar o corpo humano era o que me fascinava. Decidi que cuidaria da saúde das pessoas, seria médica. Pesquisei qual era a melhor faculdade do país, pedi aos meus pais que me matriculassem em uma escola que me prepararia para o vestibular e, porque ela era cara demais, consegui uma bolsa de estudos. Estudei muito ao longo de todo o ensino médio para me manter entre os melhores alunos de minha turma e lidei com as crises de ansiedade e de pânico que surgiam e se tornavam mais frequentes conforme a prova se aproximava. Fiz tudo o que pude, o melhor que pude. E, mesmo assim, eu falhei.
Duas vezes, por muito pouco, não passei no vestibular e, no ano de minha terceira tentativa, eu não suportava a ideia de ser reprovada novamente. Então, desisti do mais importante, o que eu queria fazer, para dar uma chance ao que eu poderia fazer. Foi assim que escolhi o jornalismo. Na faculdade, queria trabalhar escrevendo sobre gastronomia, mas, mesmo já me especializando no tema, não consegui. Foi assim que acabei em start-ups. Essas são as minhas primeiras lembranças de ter desistido de algo importante para mim para tentar não sofrer, ou não sofrer tanto. E, sem perceber, segui escolhendo menos do que os meus sonhos nos meus estudos, na minha carreira, nos meus relacionamentos, em todas as partes da minha vida.
Até agora.
Hoje começa novembro, o mês de meu aniversário. É o meu dia favorito no ano e, conforme ele se aproxima, borbulham ideias de como comemorá-lo. Normalmente, eu me presenteio com alguma coisa material, talvez uma experiência, mas o fim de um ano tão difícil pede por algo mais especial. Então, eu me dou compaixão e, se ainda desejo voltar no tempo, não é mais para mudar o passado, mas para acolher a menina, adolescente e adulta que fui. Eu me dou perdão por tudo o que não sabia, por tudo o que não pude fazer diferente. Eu me dou gratidão por não ter desistido, mesmo quando existir parecia não fazer mais sentido, o que aconteceu mais vezes do que eu gosto de admitir. Eu me dou coragem para começar outra vez, escolhendo o que eu realmente quiser, sempre que for possível.
Como fazer isso é o que preciso descobrir. Tenho muitas ideias e escrever sobre a minha vida e sobre o meu amor por comer e beber, é uma delas. É para isso que criei este espaço, em que quero compartilhar experiências, reflexões e o que mais me atravessar enquanto, como bem disse minha mãe, vivo para comer. Eu espero que você goste e, mais ainda, que minhas palavras te inspirem e te ajudem a ter uma relação cada vez melhor consigo e com o que come.
Se você gostou desse texto, não deixe de curtir e de enviar para alguém que possa gostar também. E, se quiser, deixe um comentário ou me mande uma mensagem no Instagram contando que achou e o que faria se pudesse começar uma vida nova. Eu adoraria saber e conversar a respeito com você. :)
E não esqueça de assinar o Cronicamente! A assinatura é gratuita e, com ela, você garante que não vai perder nenhuma história ou recomendação que eu compartilhar por aqui.

a vida tem um jeito mt maluco de traçar os caminhos que escolhemos seguir, mas eu sempre vejo sentido quando olho por cima e enxergo o mapa que desenhamos, sabe? pra mim sua trajetória faz todo sentido e acompanhar as mudanças e (re)evoluções que você tem vivido é algo realmente incrível de se ver. amei o post e as recomendações, é um presente pra world wide web contar com suas criações. voa, nath!
Amei a ler sua história Nath, me vejo muito nesse lugar também de as vezes ter tanto medo de não dar certo eu nem me arrisco a tentar.
Adorei a parte das dicas, principalmente do brunch 💙