Sobre regras e hospitalidade
Eu estava atrasada, de novo. Nessa semana, conheci uma jornalista e ela me contou que, quando foi a esse restaurante, chegou antes da abertura e já haviam distribuído todas as senhas. A única opção seria esperar que pessoas suficientes saíssem para que seu grupo fosse acomodado, sem saber quanto tempo levaria. Ela desistiu e foi para outro lugar. Eu não podia e nem queria desistir.
Era a nossa comemoração do dia das mães. O plano era eu chegar às 11h, uma hora antes de o restaurante abrir, garantir a senha do almoço e ler um livro até eu e meus pais sermos acomodados. Eu havia planejado tudo, mas o cansaço me roubou tanto tempo que cheguei às 11h40. Péssima filha, pensei, enquanto torcia para ter mais sorte do que juízo, como meu pai gosta de dizer.
A sorte estava a meu favor. Havia apenas um grupo na frente e consegui a senha de que precisávamos. Faltavam cinco minutos para o horário em que meus pais chegariam e decidi ler próximo às mesas dispostas na calçada. Uma senhora saiu do restaurante para fumar e me olhou espantada. Disse não lembrar da última vez em que alguém aguardou na fila com um livro na mão, ao invés de um celular. Perguntou o que eu estava lendo e mostrei-lhe a capa do livro sobre café. Deu o último trago no cigarro e, antes de voltar à cozinha, pediu que eu não fosse embora sem lhe dizer onde o café tinha surgido. Eu tinha uma vaga lembrança, de cursos que fiz há muito tempo, de ser na Etiópia, mas não quis arriscar. Prometi que contaria a ela assim que encontrasse a informação no livro.
Depois que ela se foi, li por poucos minutos antes de a ansiedade borbulhar de novo. Meus pais estavam atrasados. Aos poucos, mais pessoas pegavam suas senhas e, pouco depois do meio-dia, chamaram meu nome. Quando expliquei que meus pais estavam quase lá, mostraram-me o relógio e disseram que eles tinham cinco minutos a partir daquele momento ou passariam outro grupo na nossa frente. No último segundo, eles chegaram. Sentamos à mesa e eu relaxei de verdade pela primeira vez no dia, talvez na semana.
Quando falo desse restaurante com outras pessoas, muitas comentam que nunca conseguiram ir ou que, chegando lá, desistiram por conta da espera, assim como a jornalista que conheci. E eu entendo. Não estamos acostumados a fazer esforços para sermos atendidos em um lugar. Basta fazer uma reserva, se necessário, e chegar no horário combinado; mesmo para os atrasados, a tolerância costuma ser generosa. Na Tenda do Nilo, não é assim. Quem não quiser esperar muito, como eu, precisa se planejar para chegar antes da abertura e pegar uma senha, mas os grupos só são acomodados quando todas as pessoas estão presentes. Sempre que fui, vi tentativas de contornar essas regras, sem sucesso. Elas são reforçadas assim que se chega e não há exceções, nem para grupos prioritários.
Sempre que vou, penso no conceito de hospitalidade. Eu a entendo como o ato de acolher e cuidar de quem chega, compartilhando o que temos de melhor, e é isso o que espero quando vou a um restaurante. O que esquecemos é que, em cada um deles, as regras podem ser diferentes. Não é porque existe um padrão, que prioriza as necessidades de quem come e bebe, que assim será em todos os lugares. Não é porque alguns acomodam os grupos quando metade das pessoas está presente, que outros não possam adotar outra proporção. Não é porque alguns não cobram taxa de rolha de quem quiser levar seus próprios vinhos, que outros não possam cobrá-la. Se nós queremos frequentar um lugar, devemos primeiro nos informar sobre as suas regras e, se estivermos confortáveis com elas, segui-las para só então sermos acolhidos e cuidados como queremos.
Eu mentiria se dissesse que não foi estressante seguir as regras da Tenda do Nilo, mas sabia que valeria a pena, não só porque a comida seria excelente, mas porque apresentaria aos meus pais um restaurante que eles amariam tanto quanto eu. Sempre me faz feliz indicar um lugar e saber que alguém o amou também, mas esse sentimento é mais intenso quando isso acontece com as pessoas mais importantes da minha vida. Para conquistá-los desde o início, minha estratégia foi começar pelo kibe frito (R$ 15,80 a unidade). Da cozinha, os atendentes saem com uma bandeja grande, cheia de kibes fritos na hora e distribuídos aos poucos, conforme cada grupo pediu. A casquinha é delicada e crocante; rompida, ela revela a carne moída suculenta e adocicada por especiarias. Depois de compartilhá-lo com outras pessoas, eu criei a regra de que esse kibe não se divide - ou eu não o divido. Pedimos um para cada um e, comparando-os com outros que já tínhamos comido, concluímos que ele era o melhor.
Em seguida, escolhemos o quarteto de pastas, com homus (de grão de bico), babaganuche (de berinjela), muhammara (de pimentão vermelho) e coalhada seca (R$ 68,90). Antes de comê-las, a casa recomenda despejar uma quantidade generosa de azeite por cima de cada uma e obedecemos. Para acompanhar, pedimos um pão árabe para cada um (R$ 3,20 a unidade), que foi mais do que o suficiente, e a salada de berinjela (R$ 58,60). Para mim, o destaque foi a muhammara, que adorei combinar com coalhada para contrastar a doçura de uma com a acidez da outra. A salada, gostei de comer com o babaganuche, que tornou o sabor da berinjela ainda mais intenso.
Para os pratos principais, pedimos o fatte, feito com pão árabe torrado coberto com carne bovina, grão de bico e coalhada temperada e finalizado com xerém de castanhas fritas na manteiga (R$ 128,00), acompanhado de meia porção de trigo com costela também bovina (R$ 59,70). É preciso comer rápido, para que a textura do pão não se perca e, na junção dos pratos, o doce e o ácido se combinam deliciosamente mais uma vez. Desafiando a capacidade de nossos estômagos, comemos até não sobrar um único grão de trigo. Não houve espaço para uma sobremesa ali, mas já estava satisfeita por ter celebrado minha mãe em um restaurante que entrou para os nossos favoritos.
Durante todo o almoço, as pessoas que nos serviram foram muito atenciosas e carinhosas, o que desmonta a ideia de rigidez e rispidez com que muita gente vê o restaurante. As regras que criam, as sugestões que fazem são para garantir que, dentro de suas limitações, cada pessoa que passar por lá terá a melhor experiência que eles podem oferecer. Talvez, o que eles ofereçam não seja para todo mundo ou para qualquer momento; aliás, nada é para todo mundo, a qualquer momento. Mas, ao final do almoço, eu estava tão feliz que já nem lembrava do nervosismo e ansiedade que me dominaram antes de o restaurante abrir.
No final do dia, li mais algumas páginas do livro sobre café e confirmei que os estudiosos acreditam que ele tenha surgido na Etiópia. Não sabendo quando iria à Tenda do Nilo de novo, mandei uma mensagem no Instagram contando sobre o meu encontro de antes e pedindo que repassassem a informação à senhora com quem conversei - que descobri ser a dona e a chef do restaurante. Agradeceram a minha gentileza e pensei que a hospitalidade, mesmo na gastronomia, deve ser sempre recíproca. E que respeitar as regras, os limites de quem nos acolhe e cuida, pode ser o melhor começo para ter a experiência que a gente quer.
SERVIÇO
TENDA DO NILO
De terça e quarta-feira, das 11h às 15h (apenas pedidos para retirada)
De quinta-feira à sábado, das 12h às 14h30 (apenas atendimento no salão)
Rua Coronel Oscar Porto, 638 - Paraíso - São Paulo/SP
Telefone: 11 3885.0460
Instagram: @tenda_do_nilo
Informações checadas em 10.05.2026.
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