Fazer o mínimo
Em um domingo preguiçoso, encontrei uma amiga querida para comer e conversar. Falávamos sobre fazer exercícios físicos e ela confessou que, quando compartilhei minha estratégia de começar pelo mínimo possível, ela não acreditou que daria certo. Para ser honesta, eu também não acreditei, mas deu. Nesta semana, completei - e ultrapassei! - 250 dias de exercícios físicos no ano. E, pela primeira vez, posso dizer que não sou mais sedentária.
Há uns dois anos, eu pensava em quais seriam as minhas resoluções e metas para o próximo ano. Queria mudar muitas coisas, mas principalmente cuidar melhor da minha saúde e da minha aparência, ser mais feliz comigo mesma, o que envolvia fazer exercícios físicos regularmente. Eu fazia pilates duas vezes na semana, mas sabia que não era o bastante. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que pessoas adultas, com idade entre 18 e 64 anos, façam, por semana, pelo menos 150 minutos de exercícios físicos de intensidade moderada, 75 minutos de exercícios físicos de intensidade alta ou uma combinação equivalente dos dois, mas reforça que os benefícios para a saúde são maiores quando esses números sobem para 300 e 150 minutos, respectivamente. Ela também diz que exercícios de fortalecimento muscular devem ser feitos pelo menos duas vezes por semana. Como você percebeu, por mais que me exercitasse, eu ainda estava bem longe do recomendado em qualquer cenário.
Com o que havia estudado sobre criação de hábitos, decidi começar pelo mínimo. As aulas de pilates somavam cem minutos de exercícios leves a moderados, só faltavam cinquenta para eu sair raspando do sedentarismo. Eu sabia que gostava de musculação, mas falhava em tentar praticá-la pela duração e frequência que fosse há anos. E se eu começasse a fazer musculação por quinze minutos, uma vez por semana?
Parecia um mínimo possível, que eu alcançaria e superaria com facilidade e gentileza. Envergonhada, pedi ao Jones, meu professor, que montasse um treino de musculação que coubesse nesse tempo. Achei que ele cancelaria o nosso contrato, mas ele nem hesitou concordar e, assim que recebi o novo treino, comecei. Foi fácil encontrar 15 minutos em uma semana e, em menos de um mês, já ia três dias à academia. No segundo mês, aumentei a frequência para quatro dias. No terceiro mês, além de manter a frequência, aumentei a duração para trinta minutos. No quarto mês, para uma hora. Aos poucos, eu me apaixonei por fortalecer o meu corpo, tanto que hoje dedico a isso até duas horas do meu dia, seis vezes por semana.

Começar pelo mínimo valeu a pena. Eu não me lembro de estar mais feliz com a minha saúde e com a minha aparência, ainda que queira melhorá-las ainda mais. No novo ano, quero cuidar ainda mais da minha saúde, seguir perdendo gordura e ganhando músculos e descobrir outras coisas incríveis que meu corpo pode fazer. Por isso, já em clima de virada, as minhas metas para 2026 serão:
#1 Praticar exercícios físicos por pelo menos 260 dias no ano
Não acho que preciso de outra meta para manter o hábito de me exercitar, mas quero me desafiar um pouquinho mais. Dado que faço exercícios físicos seis vezes por semana, coloquei como objetivo cinco vezes por semana, para dar espaço para os imprevistos que podem surgir. O objetivo não é ser perfeita, mas constante.
Inspirada por uma amiga, também quero tentar fazer uma barra livre até o final do ano. Meus braços, ombros e costas que lutem!
#2 Aumentar o meu tempo médio de sono para pelo menos sete horas por noite
Costumo descontar cansaço e emoções em comida e isso piora bastante quando durmo mal. Manter o sono adequado ajuda na regulação dos hormônios que controlam o nosso apetite e na redução do estresse, o que favorece a nossa capacidade de fazer escolhas alimentares melhores, tanto em quantidade quanto em qualidade. Além disso, ele é essencial para a recuperação e desenvolvimento dos músculos e para a manutenção do bom desempenho nos treinos. Se eu não cuidar do meu sono, emagrecer e fortalecer o meu corpo vai ser cada vez mais difícil.
#3 Fazer, em média, 90% das minhas refeições de acordo com o plano alimentar
Sei que já faço a maior parte das minhas refeições seguindo o plano que meu nutricionista montou, mas tem sido desafiador ter apenas duas refeições livres na semana (e olha que crio cardápios meio malucos para diminuir o sentimento de não poder comer o que quero, quando quero). Quero planejar melhor a minha alimentação e também controlar mais as minhas emoções, para não descontá-las em comida e desviar menos do plano.
#4 Criar pelo menos doze cardápios diferentes, de acordo com o plano alimentar, no ano
Tem sido muito divertido criar cardápios que respeitam o meu plano alimentar e acho que é necessário falarmos mais sobre comida de um jeito gostoso, especialmente em um contexto de restrição. Estou empolgada para provar para mim mesma que seguir um plano alimentar não precisa ser chato e ajudar mais pessoas a desconstruírem essa ideia também!
#5 Ir a pelo menos dois restaurantes que ainda não conheço por mês
Eu tenho duas refeições livres por semana e quero usá-las para visitar os meus restaurantes favoritos e conhecer as centenas (literalmente centenas) de restaurantes que acumulo em pastas no meu Instagram. Sair para comer, especialmente sozinha, é uma das atividades que mais amo e quero fazer isso com mais intenção no próximo ano.
#6 Fazer pelo menos seis aulas de culinárias diferentes no ano
Para criar cardápios, preciso ampliar meus conhecimentos sobre gastronomia, seja estudando, comendo ou cozinhando. Ter aulas de culinária e incorporar esses sabores na minha rotina tem sido muito gostoso e é algo que quero fazer cada vez mais!
#7 Organizar pelo menos seis jantares pagos no ano
Meio por acaso, eu reuni dez mulheres para jantar em um dos meus restaurantes favoritos e foi uma das melhores noites da minha vida. Nada me deixa mais feliz do que fazer pessoas felizes através do que sei sobre comida e ver tanta gente animada para conhecer sabores diferentes e fazer novas amizades foi tudo para mim!
#8 Criar e publicar conteúdo sobre alimentação, sendo pelo menos doze no Substack e sessenta no Instagram
Esse é um sonho antigo, que só agora tenho menos medo de realizar. Quero me dar a chance de produzir conteúdo sobre alimentação, de me conectar com mais pessoas através desse tema que tanto amo e, com sorte, fazer disso uma nova carreira. Torça por mim!
Você já começou a pensar em suas resoluções e metas para 2026? O que você quer realizar?
O QUE COMI
Novembro começou deliciosamente no brunch da Luiza Lafer Confeitaria que comentei em nossa última correspondência. Comi exatamente os pratos que destaquei nela, o omelete francês recheado com ricota e cebolinha francesa, de Bia Salles; a torta de chocolate, tahine, pêra, flor de laranjeira e crocante de trigo sarraceno, de Juliana Penteado; e o pão de queijo com requeijão e o bolo de limão siciliano, recheado com curd [creme à base de ovos e um ingrediente ácido] de maracujá, framboesas e namelaka [creme à base de chocolate, leite, creme de leite fresco e gelatina] de chocolate branco, de Luiza Lafer.
Tudo era muito gostoso, mas o que me encantou foi a torta de chocolate, feita com a massa mais perfeita que já comi, um contraste perfeito entre firmeza no prato e delicadeza na boca. Crocante nas primeiras mordidas, ela se dissolvia na boca assumindo uma textura tão prazerosa... Você se lembra dos vídeos em que blocos de areia cinética eram desmanchados? Foi neles que pensei assim que dei a primeira garfada nessa torta, de tão satisfatório que foi. Estranho, eu sei, mas só consigo descrever o que aconteceu na minha boca dessa forma.
Vi que até o final de dezembro, a Saiko Izawa, chefe executiva de confeitaria do Rosewood São Paulo, teria uma pequena loja no hotel. Como eu (ainda) não tenho dinheiro suficiente para fazer uma refeição completa e muito menos me hospedar lá, pensei que seria a oportunidade perfeita de matar as saudades dos doces que ela cria. Eu já fui confeiteira, trabalhei em quatro restaurantes em que a Saiko desenvolveu o cardápio de sobremesas e lembro com muito carinho e saudade dos doces tão bonitos e delicados que servíamos, em especial os do Attimo, quando o Jefferson Rueda ainda era o chefe de cozinha. A torta montblanc, de castanha portuguesa, apesar de um dos mais caros da vitrine (R$ 55), é também generoso e, para o meu paladar, o sabor mais diferente. Essas castanhas são adocicadas, com aroma de especiarias, e uma delas, cozida em calda de açúcar, é colocada por cima do creme de castanhas, açúcar e manteiga, polvilhado com açúcar de confeiteiro que inspirou o nome do doce. Se você nunca comeu castanhas portuguesas e gosta de sobremesas de dulçor equilibrado, essa torta é uma ótima opção.
Por indicação de uma amiga, fui conhecer a Nexo, uma pequena padaria artesanal que abriu no em julho desse ano, no bairro de Moema. Eles oferecem pães variados, inclusive alguns veganos, mas o que me pegou foi a vitrine de viennoiseries [massas fermentadas, acrescidas de outros ingredientes como manteiga, ovos, leite, açúcar]. Tudo era tão bonito que eu não consegui escolher nada sem a ajuda do padeiro. Ele recomendou o pain suisse de limão siciliano e mirtilos (R$ 32), que devorei junto com o café com leite gelado, com um pouquinho de noz-moscada ralada. Ainda trouxe para casa uma versão salgada, de pesto, que estava gostosa, mas não tanto quanto a doce.
Eu passaria um dia inteiro sentada em um dos banquinhos em frente à padaria comendo todos os sabores de pain suisse que meu estômago aguentasse, sem exagero.
Em novembro, eu fiz 37 anos e é claro que o meu presente de aniversário foi comer o que me desse vontade (em que isso difere de outros dias, também não sei). Comecei na Chocolatria, em que comi a melhor choux cream, em um sabor perfeito para dias quentes: manga, maracujá e coco (R$ 25).
E comi várias outras coisas ao longo do dia, mas o que me impressionou mesmo foi o menu degustação do Corrutela (R$ 265 por cinco pratos). No primeiro ato, foram servidas várias entradas, incluindo uma manteiga deliciosa, fermentada com koji [um fungo utilizado na produção ingredientes japoneses como miso, shoyu e sake] e salpicada com flor de sal. Os outros pratos também eram bons, mas euvoltaria lá só pelo pão com manteiga. Apesar de não gostar de cogumelos, adorei os erynguis marinados em uma mistura herbácea e servidos com amendoim - talvez eu goste de cogumelos quando combinados com sabores frescos. O segundo ato eram tomates curados com stracciatella [mussarela de búfala desfiada e misturada com creme de leite fresco], sementes de abóbora caramelizadas e manjericão-limão. O terceiro ato era um braço de polvo grelhado na brasa e servido com aioli [emulsão de alho e azeite de oliva] de ervas e uma salada bem fresca de erva-doce e maçã-verde. A combinação da salada e do aioli foi a minha parte favorita desse prato e não tenho dúvidas que vou fazê-la em casa agora que o verão se aproxima. No quarto ato, foi servida uma picanha de cordeiro com polenta de espinafre, relish [conserva agridoce] de tomate verde e brócolis ramoso grelhado na brasa. E, no quinto e último ato, serviram um sorvete de tangerina, com pedaços açucarados de sua casca, acompanhado de laranjas fresca e crumble [farofa doce crocante] de leite. Eu sentei no balcão de frente para a cozinha e passei a noite assistindo o trabalho dos cozinheiros e conversando com eles sobre os ingredientes e pratos. Nesses momentos, tenho saudades de ser cozinheira.
Mas a refeição mais especial de todas foi o jantar no Mapu. Em um grupo de leitura de que faço parte, algumas mulheres conversavam sobre se reunir para fazerem algumas atividades juntas, como cerâmica, pintura etc. Não me entenda mal, eu também gosto dessas coisas (apesar de não levar jeito em nenhuma delas), mas me incomoda o fato de que, quando mulheres procuram passatempos, eles envolvem produzir algo. Por que não podemos apenas ser cuidadas? Por que não podemos apenas nos divertir, sem fazer nada? Foi pensando nisso que sugeri que nos reuníssemos para jantar, para comer algo diferente e, porque a culinária taiwanesa ainda é pouco conhecida, escolhemos o Mapu para nos encontrarmos. Quase quarenta mulheres (quarenta!) se interessaram pela ideia e dez puderam ir no dia escolhido pela maioria. Foi muito especial para mim poder apresentar a elas uma culinária de que gosto tanto, em um dos meus restaurantes favoritos e vê-las tão felizes, se deliciando com a comida e com a companhia umas das outras. Eu não vejo a hora de fazer isso de novo!
O QUE COZINHEI
Ter comido coisas tão gostosas logo no começo do mês deve ter me inspirado, porque fiz o cardápio mais complexo de que consigo me lembrar, todo inspirado em sabores do Sudoeste Asiático. Teve sanduíches recheados com pasta de ovos e coalhada, temperada com sal, zatar, azeite e limão e torrada com ovos mexidos com páprica doce para o café da manhã. No almoço, teve quibe de frango com salada fatouche e arroz com lentilha com kafta e berinjela assada com molho de tomate, pimentão e cebola. No jantar, teve arais de frango ou de carne com coalhada ou queijo mussarela. E, porque parei de comer carne às segundas-feiras, nesses dias fiz os mesmos preparos trocando as fontes de proteína animal por proteína texturizada de soja (PTS). Dessas versões eu não tenho fotos porque ainda estou aprendendo a cozinhar com PTS e, não vou mentir para vocês, ficou gostoso, mas feio, muito feio.
Nesse mês, nem as refeições menores escaparam do tema. Para o lanche da manhã, fiz uma vitamina com leite, manga e canela e, para o da tarde, fiz um mingau de aveia com banana prata, tâmara e canela. Escrevendo isso, percebi que tenho pouquíssimas especiarias para fazer preparos doces em casa, coloco canela em tudo. Fica aí mais um desafio para o ano que vem.
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Que dezembro seja um mês cheio de coisas gostosas - e não só para comer e beber. Boas festas e até janeiro!








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